27/10/2026
Marlete de Fátima Correa Hofman descobriu a doença em um exame de rotina, manteve o trabalho durante o tratamento e, neste Outubro Rosa, faz um apelo: não esperem sentir sintomas para procurar o médico.
Foi em um exame de rotina, daqueles que faz todos os anos, que a empreendedora Marlete de Fátima Correa Hofman, moradora de Três Coroas, recebeu a notícia que mudaria sua vida. A mamografia e a ecografia mostraram uma alteração na mama. A biópsia confirmou o câncer, e um mês depois ela já tinha feito a cirurgia.
"Eu fiquei completamente arrasada. Eu não esperava, porque não tenho nenhum caso na minha família", lembra. No carro, a caminho de casa, chorou. E ali mesmo tomou uma decisão, que dividiu com o marido: "Vou pôr nas mãos de Deus, e o que Ele fizer por mim está bem feito".
Quando o médico ofereceu a ela mais tempo para conversar sobre o diagnóstico, Marlete preferiu seguir em frente. "Eu disse: doutor, eu já sei que é um câncer e eu preciso fazer a cirurgia. Então vamos ao que interessa."
A história dela é a de muitas brasileiras. Sem contar os tumores de pele não melanoma, o câncer de mama é o mais frequente entre as mulheres no país. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima cerca de 78,6 mil novos casos por ano entre 2026 e 2028. Na Região Sul, o risco estimado é de 77,9 casos para cada 100 mil mulheres, acima da média nacional, de 71,6.
O trabalho como terapia
Depois da cirurgia, Marlete ficou 21 dias em casa. Foi o período mais difícil. "Eu não sou muito de mexer no celular, não gosto muito de olhar TV", conta. Respeitou o tempo da recuperação e, assim que foi possível, voltou ao trabalho. "Para mim foi uma terapia. Voltar a trabalhar, conversar com as pessoas, dar risada, brincar. Foi uma recuperação excepcional."
O apoio da família, do neto e dos amigos, segundo ela, foi fundamental. "Quando tu vê que tem o apoio das pessoas, que tem amigos, aí tu só vai."
Quatro horas que passavam voando
A quimioterapia foi feita na Oncoprev Centro de Oncologia e Infusões, em Taquara, cidade vizinha a Três Coroas. A proximidade fez diferença: Marlete pôde se tratar perto de casa, sem precisar viajar até Porto Alegre a cada sessão, e voltar no mesmo dia para a família e o trabalho. Houve dias em que Marlete passou quatro horas na poltrona recebendo a medicação. "Com a conversa, com a brincadeira, passava voando. Quando eu olhava, o tratamento já estava finalizando", diz ela, que sempre teve um acompanhante ao lado durante as sessões.
O fim da quimioterapia virou festa, com gaita e dança, na própria clínica. "Eles me acolheram de uma forma que não tem explicação. O cuidado que eles têm com a gente faz a gente se recuperar também. Fiz amigos para a vida toda."
Para a oncologista Ana Paula Thomé, que acompanhou Marlete na Oncoprev, a forma como a paciente atravessou o tratamento faz diferença. "O tratamento oncológico vai além da medicação. O acolhimento, o apoio da família e a possibilidade de manter atividades do cotidiano, sempre respeitando os limites de cada paciente, contribuem muito para a qualidade de vida durante esse período. A Marlete encontrou no trabalho e na convivência com as pessoas uma importante fonte de bem-estar e apoio", afirma.
"Eu me sinto uma nova mulher"
Hoje, Marlete leva a vida que levava antes. "Estou me sentindo outra pessoa. Tudo que eu fazia antes, eu continuo fazendo." Os cabelos, que caíram durante a quimioterapia, voltaram crespos e brancos. "Estou amando esses crespos. Isso tudo faz diferença quando a gente se vê e se aceita. Eu me sinto uma nova mulher."
Para quem está em tratamento, o recado é de fé e de persistência. "Não se deixem abater. Tentem levar a vida normal, conversem com outras pessoas e, se precisarem, procurem uma rede de apoio. O pensamento da gente é 80%. Sigam em frente, porque tem uma vida normal esperando lá fora."
Não espere o sintoma
A descoberta em fase inicial, Marlete não tem dúvida, foi o que mudou sua história. "Eu sou uma pessoa que conhece o meu corpo. Quando sinto alguma coisa diferente, eu já vou ao médico. Façam os exames todo ano, mamografia, ecografia. O diagnóstico precoce é o melhor remédio."
A oncologista reforça o alerta. "O câncer de mama pode não provocar sintomas nas fases iniciais. Por isso, a mamografia de rastreamento é tão importante: ela permite identificar alterações antes mesmo que sejam percebidas pela mulher. De maneira geral, quanto mais cedo a doença é diagnosticada, maiores são as chances de cura. Também é importante lembrar que a maioria dos casos ocorre em mulheres sem histórico familiar de câncer de mama", explica Ana Paula Thomé.
Desde setembro de 2025, o Ministério da Saúde recomenda a mamografia a cada dois anos para mulheres de 50 a 74 anos, mesmo sem sintomas. Entre 40 e 49 anos, o exame pode ser feito por decisão conjunta da paciente com o médico. O autoexame e a atenção a qualquer mudança nas mamas complementam o cuidado.